POLÊMICA: A DIFERENTONA, O CREMEB E OS RISCOS DE INTERPRETAR DEMAIS
- Thiago Araujo Pinho
- 14 de out. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 14 de out. de 2024

Estava eu inocentemente à deriva nas águas narcisistas do Instagram, cercado por vídeos fofos de capivaras e bebês experimentando uma fatia de limão, quando algo explodiu na minha tela, sem qualquer tipo de aviso. A influenciadora e acadêmica Barbara Carine, também conhecida como intelectual diferentona, acusou o Cremeb[1] de racismo em uma de suas campanhas aqui em Salvador. Segundo Barbara, a imagem estampada no outdoor tinha um cheiro suspeito, nem um pouco inocente, muito menos neutra. Nas entrelinhas de sua mensagem institucionalizada, nos bastidores do jaleco branco e sua defesa da medicina, uma estrutura racista assombrava o edifício semiótico, nada mais do que uma estratégia violenta, discriminatória e traiçoeira. Segundo a influenciadora: “É muito bizarro, incita pensamentos racistas, reforçam o estereótipo racista do ponto de vista estrutural que permeia esse imaginário coletivo social. Uma instituição pública fazendo uma bizarrice em via pública”.
Em seu carro, com óculos escuros e uma atitude descontraída, como é típico de suas performances no Instagram, Barbara dedica alguns minutos do seu dia ao outdoor. No vídeo, a arqueóloga do saber escavou cada centímetro daquela imagem, observando seus traços subliminares, suas influências sistêmicas, estruturais, acompanhada de uma indignação explosiva... instagramável. Foucault ficaria orgulhoso da nossa arqueóloga soterapolitana? Não sei... o que você acha?
Continuando suas escavações hermenêuticas, ela afirma:
“Por que a imagem de uma mulher negra? Eu não conheço pessoas negras arriscando ser médicas, sem diploma para isso, eu vejo muita gente branca, usando do seu lugar de passabilidade, da sua estética de poder, da sua estética de segurança, de alguém que está acima de todas as suspeitas para fazer isso e dar golpe em pessoas no Brasil”, disse a Intelectual Diferentona.
Depois da polêmica ter se espalhado pelos quatro cantos da internet, o Cremeb se pronunciou. Segundo eles, nunca existiu qualquer tipo de racismo em sua campanha, principalmente porque modelos brancos também participaram da mesma proposta, detalhe despercebido por Barbara. O objetivo era apenas conscientizar a população sobre os riscos de falsos médicos, além de incluir um toque de diversidade em suas campanhas
Depois de tantos tweets, comentários, justificativas, e toda uma série de malabarismos retóricos divertidos de ler, esse caso específico me ensinou uma coisa muito importante, algo sobre minha própria área de atuação. Em um momento histórico onde sociólogos, antropólogos e filósofos participam constantemente de plataformas digitais, em um ritmo alucinado de tweets, shorts e lives, uma pergunta parece meio inevitável nesse território: “É possível perder o controle das nossas interpretações?”, “é possível ir longe demais?”.
O campo das humanidades é conhecido pelo seu contorno flexível, sem qualquer tipo de paradigma, um espaço aberto envolvendo múltiplos caminhos. Em geral, esse campo já carrega dentro de si esse ritmo mais alternativo, diferenciado... maleável. Por exemplo, dois biólogos de países diferentes não têm qualquer problema quando escutam palavras como “mamífero” ou “organismo”. Quando faladas, esses dois significantes participam de um mesmo registro hermenêutico, uma base compartilhável de sentido, o que Thomas Khun chamaria de “paradigma”. É por esse exato motivo que artigos e palestras de ciências mais duras são menores e mais pragmáticos, ou seja, sem muito gasto de saliva e energia. Como não precisam explicar os contornos de sua estrutura de linguagem, em um voo livre com infinitas possibilidades, podem caminhar por atalhos, quase sempre por caminhos metodológicos, ao invés de viagens teóricas.
Mas, quando o assunto são as humanidades, não existe um consenso básico sobre conceitos fundamentais, ou seja, não temos nem um acordo ontológico sobre a estrutura do próprio mundo, nem mesmo um consenso epistêmico sobre como conhecer esse mesmo mundo. Resumindo... é um espaço super flexível e aberto a múltiplas manobras. "O que é poder?", "O que é sociedade?", "O que é estrutura?", pergunta o estudante. Sem dúvida, mesmo com o aparecimento das ciências humanas no fim do século XIX, esse cenário argiloso nunca deixou de existir. O rótulo “ciência” ofereceu um tom mais sistemático ao nosso campo, um ar de seriedade, embora nossos pés continuam feitos de argila. Ainda que você seja um latouriano e despreze modelos bifurcados, ou sofra com calafrios modernos que atravessam todo o seu corpo, continua sendo possível traçar uma linha consistente entre filósofos e biólogos.
O campo das humanidades é mais flexível, sem dúvida, o que sempre trouxe uma margem de manobra divertida, um tipo de pano de fundo estético impossível de ser encontrado em áreas mais sólidas. Mas quando mergulhamos em análises sobre inconsciências, sobre motivações ocultas nos bastidores do que é visto, dito e escrito, algo típico de linhagens mais pós-estruturais, essa flexibilidade transborda além de qualquer limite confiável. Além disso, quando você adiciona o ingrediente “Instagram” nessa panela metafórica... pois é, você me entendeu!!!!
O que Barbara fez no vídeo não é bem uma novidade. Ela basicamente aplicou uma técnica chamada “análise do discurso”, uma manobra hermenêutica que revela os bastidores de elementos semióticos, de preferência escavando raízes ideológicas enterradas por criaturas desprezíveis. Em geral, a análise do discurso é uma ferramenta pós-estruturante questionável, mas pelo menos no campo acadêmico existem filtros que impedem o transbordamento desse tipo de hermenêutica da suspeita. Por exemplo, bancas de mestrado ou doutorado, revisões por pares, e outros filtros acadêmicos, ajudam criaturas de humanas a manter os dois pés no chão, limitando suas viagens especulativas.
Esse risco de voos sem rumo, numa pura esteira de especulações desencarnadas, foi muito bem exposto por Whitehead, em uma de suas obras (Processo e Realidade). Mas, quando mergulhamos em plataformas como Twitter e Instagram, nossa estrutura epistêmica perde completamente o controle, o que aconteceu com Barbara. Esse uso descuidado de ferramentas hermenêuticas é algo típico do que chamo de esquerda liberal, um grupo que instrumentaliza ao extremo conceitos e teorias das ciências sociais e humanas. Em vez de um cuidado metodológico, além de uma prudência científica, o que temos é o pragmatismo midiático, político ou econômico tomando conta das circunstâncias. Em vez do lento e entediante processo de pesquisa, e suas várias camadas de filtragem, temos interpretações fast-food entregues em segundos, tudo isso com um único propósito: satisfazer a demanda simbólica de criaturas famintas, ou seja, eu e você.
É preciso deixar claro que o problema não é exatamente Barbara. Sem os filtros acadêmicos limitando nossas pretensões, acompanhado de uma área não paradigmática e super flexível, além de um pragmatismo visceral que atravessa o mundo lá fora, todos podem despencar no mesmo buraco. O que nos protege da paranoia não é a nossa capacidade incrível de pensamento, mas a resistência dos nossos pares e dos nossos circuitos de pesquisa. As redes sociais, ao contrário, seguem o ritmo dos algoritmos, reforçando um viés de confirmação confortável, embora sempre apressado... perigoso.
[1] Conselho Regional de Medica do Estado da Bahia
A campanha é brega e o conceito usado não comunica. Vi na paralela e demorei para entender que se tratava de identidade falsa, inicialmente pensei que era algum outdoor de filme pelo efeito espelho. Só soube da polêmica através de Bárbara, não tinha visto o outdoor com os médicos negros, de fato há um ruído de comunicação na campanha que reforçam esteriotipos racistas, mas talvez essa nem deva ser a principal crítica à peça que derrapa em seu conceito. Tentando lacrar o cremeb se lenhou e caiu na arapuca do imediatismo hermenêutico. Ótimo texto.
Thiago, parabéns pelo texto. Mesmo não concordando com todos os detalhes da sua análise, gostei muito da construção dos argumentos e do tom provocativo. Precisamos de mais pessoas assim como você
Quando eu vi a propaganda tive a mesma sensação que Bárbara. Porém, vi depois outros personagens. Como profissional de comunicação, digo que o conceito pensado não levou em consideração o efeito que a mensagem passa quando atribuída a uma pessoa negra. Para que não houvesse esse tipo de ruído, seria importante associar mais personagens.
Agora veja que interessante - eu vi uma parte dessa campanha no shopping Barra. E quem era o personagem que estava no shopping Barra? Um homem branco.
Te ler ( e ouvir ) é sempre abrir os olhos para a lucidez.
Excelente reflexão!
Adorei o texto, a exposição das ideias, a coerência textual.
Tenho bastante reserva com pessoas que tem opinião sobre tudo. Me lembra alguém versado em tudo profundo em nada.
Sou um homem preto. Das “filosofias” e do “tambor” e confesso que quando vi o post da Bárbara, não me demorei nem 5 segundos. Então não acompanhei a sua fala. Vi a imagem e os dizeres do outdoor, mas não me interessei pelo comentário da irmã.
A imagem ligada aos dizeres causou incômodo de fato, mas são muitas as demandas e mais urgentes no meu dia a dia. Demandas reais. Vidas reais. Questões virtuais como essas só me envenenam. Preciso de saúde mental para cuidar das questões reais dos meus filhos…