JESUS, DIONÍSIO, E O CARNAVAL
- Autor(a) Convidado
- 26 de fev.
- 6 min de leitura

*Everton Nery
O diálogo entre diferentes mitologias e manifestações culturais revela a variedade das interações simbólicas e conceituais presentes ao longo da história. Exploraremos aqui a intertextualidade entre três elementos aparentemente distintos: Jesus, Dionísio e o Carnaval. Ao entrelaçar as figuras de Jesus e Dionísio, destacamos tanto as diferenças quanto as similaridades entre suas narrativas e seus impactos culturais. Ao introduzir o Carnaval como um cenário onde essas mitologias se manifestam, buscamos compreender como essas tradições foram reinterpretadas e incorporadas à sociedade contemporânea. Este texto usa como base o livro “Mitologia grega e bíblica: narrativas de transgressão de Everton Nery Carneiro, publicado pela Eduneb e que pode ser encontrado na Amazon.
Na intersecção entre a mitologia antiga e as tradições religiosas modernas, emerge um campo fértil de estudo que revela traços comuns entre narrativas míticas que, à primeira vista, parecem distintas. Jesus, figura central do Cristianismo, é frequentemente abordado em relação à sua dualidade entre sacrifício e redenção, é relacionado ao vinho e nasceu fruto de uma relação hierogâmica; já Dionísio, deus grego do vinho e do êxtase, simboliza o caos, a transgressão e a renovação, sendon também fruto de uma relação hierogâmica.
O Carnaval, por sua vez, é uma celebração que, historicamente, se desenrola como um ritual de inversão e liberdade. Destaco neste contexto, explorar como essas narrativas se entrelaçam, revelando aspectos subversivos e transformadores presentes em cada uma delas, promovendo um debate diverso e plural sobre as interações entre o mito, a fé e a cultura. Aqui embarco em minha própria obra numa análise profunda da convergência entre a mitologia grega e a narrativa bíblica, especificamente no que tange às figuras de Jesus e Dionísio, bem como o impacto significativo do Carnaval como manifestação cultural. Proponho uma visão inovadora ao examinar como narrativas de transgressão permeiam tanto mitos antigos quanto tradições religiosas e populares.
Em meu livro 'Mitologia grega e bíblica: narrativas de transgressão', não apenas traço paralelos, mas também ofereço uma meticulosa interpretação sociocultural, ampliando o entendimento sobre como essas tradições informam e transformam o pensamento contemporâneo. A figura de Jesus Cristo na mitologia cristã e Dionísio na mitologia grega apresentam tanto paralelos surpreendentes quanto divergências marcantes. Ambos são identificados como figuras de salvação e transformação: Jesus através da redenção e Dionísio pelo êxtase transformador. No entanto, enquanto Jesus é percebido como uma divindade singularmente moral, cujo sofrimento e sacrifício visam a redenção da humanidade, Dionísio personifica a dualidade da vida e da morte, do vinho e do caos, sendo celebrado por seus seguidores em ritos de liberação e transcendência.
Assim, enquanto Jesus é o símbolo do triunfo sobre a morte, Dionísio é o emblema da vida pulsante e do rebuliço existencial. Ambos são transgressão plena e total! Jesus e Dionísio são personagens que navegavam entre o divino e o humano, refletindo complexidades mitológicas e religiosas. Jesus, nascido de Maria, é visto como o filho de Deus (via o Espírito Santo), vindo ao mundo para purificar os pecados através de seus ensinamentos e sacrifício, culminando em sua morte e ressurreição. Dionísio, por outro lado, filho de Zeus e Sêmele, representa o ciclo de morte e renascimento através de sua ligação íntima com a natureza, os vinhedos e a liberação cultural.
A análise comparativa das narrativas e simbologias de Jesus e Dionísio revela um entrelaçamento fascinante entre os mitos de sacrifício, transformação e transcendência. Jesus, simbolizado pela cruz, incorpora o renascimento espiritual e a promessa de vida eterna, enquanto seu nascimento em uma manjedoura evoca humildade. Dionísio é frequentemente retratado com a coroa de hera e a taça de vinho, simbolizando a abundância e o êxtase. O Carnaval, reconhecido mundialmente por sua exuberância e cores vibrantes, configura-se não apenas como uma celebração de alegria, mas também como um espaço de transgressão e renovação. Nessa festa, as normas sociais são temporariamente subvertidas, permitindo uma liberdade de expressão que fatidicamente possibilita uma reavaliação do status quo. Ele se apresenta como uma manifestação cultural que encarna o espírito de superação de limites, refletindo o desejo humano de experimentar um período de caos que eventualmente leva à renovação social e pessoal, possibilitando uma reflexão crítica sobre as hierarquias e costumes da sociedade.
As origens do Carnaval remontam às antigas festas celebradas pelos romanos e gregos, como as Saturnálias e Dionisíacas, marcadas pela inversão das estruturas sociais. Estas festividades tinham profundo significado simbólico, representando o ciclo eterno de morte e renascimento, e eram momentos em que a ordem social era simbolicamente invertida. A simbologia do Carnaval contemporâneo mantém ecos dessas práticas, com o uso de máscaras e fantasias que permitem o anonimato e, assim, a liberação dos papéis sociais convencionais, oferecendo um espaço para a crítica social e a expressão de desejos latentes.
O Carnaval encontra paralelos fascinantes nos mitos de Jesus e Dionísio, ambos relacionados a conceitos de transgressão e renovação. Dionísio, deus do vinho e do êxtase, é celebrado por sua habilidade de transcender normas e unir os seus seguidores em um frenesi ritualístico, similar ao desregramento do Carnaval. Jesus, por outro lado, simboliza a renovação espiritual e a promessa de vida nova, valores que ecoam na própria essência do Carnaval, uma vez que a celebração antecede a Quaresma, um período de reflexão e renovação espiritual. Assim, o Carnaval serve como uma ponte cultural que conecta tradições antigas a práticas religiosas modernas, unindo mitologia e espiritualidade em uma expressão única.
Busco destacar aqui uma compreensão que tenta inovar ao explorar as intersecções entre mitologia grega e bíblica e tradições carnavalescas. Essa contribuição reside na busca de transcender as barreiras convencionais entre disciplinas distintas, integrando elementos de teologia, antropologia e estudos culturais para oferecer uma perspectiva holística sobre a influência recíproca entre essas tradições literárias e festivas, não apenas ressaltando os paralelismos entre figuras míticas e religiosas como Jesus e Dionísio, mas também explorando como o Carnaval serve como um elo vivo que perpetua a transgressão e renovação presentes nesses mitos, convidando a um (re)pensar crítico das crenças e práticas culturais.
Tento estabelecer uma abordagem singular combinando análise comparativa com estudos intertextuais, a partir de um prisma multidisciplinar, integrando elementos de antropologia, teologia e história cultural. Utilizo a análise simbólica e o conceito de transgressão, fundamental para compreender as culturas e suas manifestações de resistência e identidade. A metodologia empregada aqui se concentra na identificação de temas universais de sacrifício, morte e renascimento, presente tanto na mitologia grega quanto nas escrituras bíblicas, correlacionando-os com as práticas festivas do Carnaval, que simbolizam renovação e subversão das normas sociais vigentes. Proponho assim, interpretações ousadas sobre as conexões entre Jesus, Dionísio e o Carnaval, sugerindo que esses elementos não apenas compartilham origens comuns de transgressão e renovação, mas também refletem uma contínua reinterpretação cultural de mitos fundadores.
Ao analisar a figura de Dionísio e sua festa, traço paralelos com Jesus, destacado pelas narrativas de morte e ressurreição, que são revitalizadas nas festividades do Carnaval, espelhando temas de libertação e transformação. Postulo que essas interrelações convidam a uma reflexão sobre a condição humana e a inevitável busca por sentido através da celebração e da catarse coletiva. Ao tentar concluir esta análise é evidente que esses elementos culturais e mitológicos compartilham mais do que aparentam à primeira vista. Tento fazer uma condução por um caminho onde mitologia grega e bíblica se cruzam no contexto festivo e transgressor do Carnaval, revelando as camadas de significados sociais e espirituais que estes fenômenos carregam consigo. Isto nos possibilita entender como elementos aparentemente distintos se entrelaçam, abrindo espaço para novas interpretações e compreensões, unindo o sagrado com o profano em uma dança complexa de significados e ressignificações.
No entrelaçar de mitos e rituais, onde o sagrado e o profano se abraçam numa dança ancestral, encontramos não apenas ecos de antigas narrativas, mas também o pulsar contínuo da humanidade em busca de sentido e transcendência. Jesus, Dionísio e o Carnaval não são apenas personagens e narrativas distantes; elas são reflexos de nossa própria vitalidade, do desejo de redenção e da necessidade de libertação. São metáforas vivas que revelam o ciclo eterno de morte e renascimento, caos e ordem, sacrifício e êxtase, na sempre presente do corpo e do vinho. Ao revisitar essas narrativas sob o prisma da transgressão e da renovação, descortinamos não apenas os véus da história, mas também os nossos próprios dilemas existenciais. Que essa jornada entre o divino e o humano nos permita dançar no limiar do mistério, abraçando nossas contradições e celebrando a profunda beleza de sermos, ao mesmo tempo, carne e espírito, finitude e eternidade. Sendo assim: “Já é carnaval cidade, acorda pra ver.”
*Doutor em Teologia e Professor da UNEB
IMAGEM: Paróquia São Geraldo Magela
Parabéns professor, excelente texto.