"FRICOTE" É UMA MÚSICA RACISTA?
- Carlos Henrique Cardoso
- 7 de mar.
- 3 min de leitura

Nega do cabelo duro
Que não gosta de pentear
Quando passa na baixa do tubo
O negão começa a gritar
Pega ela ai, pega ela ai
Pra que? pra passar batom...”
“Fricote”, composição de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, foi considerada o marco zero do movimento Axé Music, que completou 40 anos no carnaval que passou, e grande sucesso da folia de 1985. Muita gente cantou e dançou, mas de uns tempos pra cá, caiu em desuso após observações do tom injurioso contido na letra, algo inegável. Vi algumas discussões recentes – participei de algumas – e vi vídeos raivosos atacando a música de Luiz. Mas cabe discussão: a música que é racista?
Numa entrevista semanas atrás, Caldas falou que se inspirou num cara que gritou “pega ela aí” pra uma mulher negra que havia passado, quando estava num bar com Camafeu e aí a letra surgiu. A referência ao sujeito (o negão que começa a gritar), à mulher, e ao local, a Baixa do Tubo, mostram um cenário habitado pela negritude da cidade, ou seja, na época, tava tudo em casa. Com o passar dos tempos, tornou-se uma canção politicamente incorreta ao extremo. Até o nome do local entrou em desuso. Os moradores de lá se referem à localidade como Vale do Matatu. No entanto, continuo perguntando: é a música que é racista?
Pelo que Luiz Caldas conta, é uma crônica da cidade e, se possui trechos discriminatórios, precisamos ver como esses termos eram percebidos na época. Existiam frases, brincadeiras, palavreados, piadas, e outras situações que hoje dariam bate-boca, quebra-pau, protestos, processos, e até “cana”. Os referenciais da composição são totalmente anacrônicos, tanto que o “pai da Axé Music” não a interpreta há anos. “Fricote” é citada como a inauguração, a fita cortada, a pedra lançada de um estilo musical que varreu o país. E só. Não apenas ele, mas nenhum outro artista canta essa canção. Só não entendo porque continuam mencionando o racismo inveterado da composição.
Eu considero que a música foi composta a partir de vícios linguísticos de uma comunidade, quando não havia um amplo debate sobre a semântica racial. Pra termos uma ideia, o samba-reggae era uma interface da Axé nesse período e não encontrei nenhum manifesto repudiando a música por parte de compositores negros como Tatau, Tonho Matéria, Tote Gira, e tantos outros, naquela circunstância. E Luiz Caldas tem outros sucessos sem nenhuma evidência polêmica. Como alguém com uma carreira ilibada pode ficar sendo atormentado de ter entoado uma música supostamente racista?
E o supostamente que usei acima é porque considero outras composições bem mais problemáticas nesse sentido. “Meu Cabelo Duro é Assim”, do Chiclete com Banana, fala “Nega não precisa nem falar / Nega não precisa nem dizer / que meu cabelo duro se parece com você”. Como assim? Ao contrário do perfil cronista de “Fricote”, nessa composição é o personagem-autor referindo-se diretamente, de modo pejorativo, ao cabelo duro, descrevendo uma característica negra de modo ainda mais depreciativo. Bell Marques cantou “ô mainha, eu gosto mesmo do cabelo de chapinha, mainha”, referindo-se a uma garota que queria alisar a cabeleira, rejeitando as características de seu cabelo afro. A marchinha “O Seu Cabelo Não Nega, Mulata” o autor diz que “se a cor não pega” ele se entregaria ao amor da mulata. Olha que complicado!
Enfim, eu considero a música racista? A música, não, mas a conjuntura social que a gerou, sim. A autoria advém de métodos de comunicação que imperavam na já distante década de 1980, quando, saindo de uma ditadura militar, todo mundo queria um país mais leve. Não é uma composição aleatória, saindo de uma mente vil. Isso vem mudando? Gradativamente. Só espero que em 2085, no centenário do Axé, não me venham com esse remi-remi novamente. Já deu.
FONTE:
IMAGEM: Smule
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