FERNANDA TORRES, TOTALMENTE PREMIADA
- Jacqueline Gama
- 8 de mar.
- 3 min de leitura

O ano de 2025 ficará marcado na história do Brasil pelo sua primeira estatueta do Oscar, merecidamente para: Ainda estou aqui, na categoria melhor filme internacional.
O longa-metragem de Walter Salles, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, denuncia o desaparecimento de Rubens Paiva durante o período da Ditadura Militar, ao mesmo tempo em que sensivelmente consegue capturar a trajetória de Eunice Paiva, ao cuidar dos filhos e honrar a memória do marido na luta pelo reconhecimento do Estado brasileiro como responsável pela morte do engenheiro e político.
O filme de Salles comove. A protagonista, interpretada por Fernanda Torres, consegue comunicar todas as suas emoções com o olhar. A fotografia profunda coloca o espectador diante dos horrores de tortura e assassinatos executados pelos militares, sem a perda da sensibilidade e da ternura do amor de família, em especial o de Eunice pelos filhos. Inclusive, uma das cenas mais icônicas, que eu chamaria de distrópica, pela resistência e pelo sorriso diante da dor e do horror, é quando a família Paiva recebe jornalistas em sua casa para denunciar o desaparecimento de Rubens, na cena, Eunice insiste para que todos os filhos sorriam para a foto, proferindo a frase: “Vamos sorrir, sorriam.”
O filme correu diversos festivais de cinema e foi aplaudido por 10 minutos em Cannes, a grande estrela deste desfile de premiações foi Fernanda Torres, que trouxe bom humor as entrevistas, inclusive levando um boneco do Pikachu para o Oscar. Apesar da descontração, inclusive falando em inglês e francês, Fernanda em nenhum momento deixou de mostrar a seriedade da denúncia e da importância de Eunice Paiva, que além da luta contra a ditatura, também foi uma aliada na luta por demarcação de terras de povos originários.
Eunice foi uma mulher forte e pioneira nas causas pelas quais lutou, e Fernanda se mostrou gigante em sua interpretação e condução extra fílmica. Torres teve seus caminhos abertos pela sua ancestral, quando Fernanda Montenegro, há 26 anos, também foi indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar por também um filme de Walter Salles, Central do Brasil, que denunciava o analfabetismo, a desigualdade social e visitava as cidades nordestinas, de forma tão poética quanto o trabalho de Ainda estou aqui.
Neste caminho de ancestralidades, Fernanda Torres foi abraçada e comida simbolicamente pelo Brasil. O país viu Fernanda Torres crescer, rimos com ela em Os normais e em Tapas e Beijos e já tínhamos nos emocionado em Eu sei que vou te amar e em Terra estrangeira. O mundo passou a conhecer um pouco mais de Fernanda Torres e nós que estávamos carentes de ídolos e de premiações, comemoramos quando ela ganhou o Globo de Ouro, um feito gigante por se tratar de uma premiação em terra estadunidense, país que por vezes demostra aversão a estrangeiros, em especial latino-americanos.
Temos que comemorar a premiação do filme no Oscar, apesar de Fernanda não ter levado, muito pelo fato de ser latina, como também por ser uma mulher de 59 anos, fator que foi apontado como aquele que tirou outra veterana da disputa, a atriz Demi Moore, de 62 anos, protagonista de A Substância. A premiação do Oscar coincidiu com as críticas que o filme faz sobre o etarismo na indústria hollywoodiana.
Repetindo 1999, na ocasião Gwyneth Paltrow com 26 anos, ganhou de atrizes experientes, entre elas Fernanda Montenegro e Maryl Streep. Em 2025, a estatueta ficou também com a atriz mais jovem, Mikey Madison, de 25 anos, mas diferente daquela circunstância, nesta, o filme, Anora, estrelado pela premiada, também foi o grande vencedor da noite, levando a estatueta de melhor filme, nessa categoria também concorreu o brasileiro Ainda estou aqui.
Fernanda Torres, representando a matriarca da família Paiva, ao lado de sua mãe Fernanda Montenegro, que interpreta Eunice mais velha, apesar de não querer clima de Copa do Mundo, o proporcionou até a última bola, e devolveu o sentimento de mátria e idolatria que o futebol brasileiro a muito tempo não nos entrega. Para nós, Fernanda foi a bola da vez e a estrela da noite. Totalmente premiada em nossos muros, ruas e redes sociais.
Comemoramos em pleno carnaval a premiação de Ainda estou aqui, em um dos momentos mais delicados da política brasileira e mundial. Ainda estou aqui não será esquecido, Rubens Paiva não será esquecido, Eunice Paiva não será esquecida, Walter Salles não será esquecido e muito menos Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, consagradas em ícones da nossa cultura e do cinema nacional que ainda estão aqui, e permanecerão na nossa história.
Imagem de capa: Arte de Anne Pires < https://www.instagram.com/p/DEeMoqWs_yS/>
É para comemorar e muito.
E muitos "verde e amarelo", de tão alienados que são, torcendo contra o país e fazendo boca torta!
Ditadura nunca mais!
Sem anistia!
Não passarão!