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Foto do escritorEquipe Soteroprosa

Do que foge quando escapa do ócio?


* Por Camila Giulia


Ultimamente tenho ouvido falar muito sobre o ócio e seu impacto na nossa rotina. Ao mesmo tempo alguns amigos têm se queixado sobre uma espécie de mudança na percepção do tempo: ou os dias passam sem serem muito percebidos, ou se arrastam com seus minutos infinitos. Eu me pergunto se não era assim antes. "Não, não. Agora com todo esse caos tá bem pior, e se eu tiver sem nada para fazer se torna insuportável".


Já dizia o ditado popular: “Cabeça vazia é oficina do diabo.”. É como se com nossas mentes imensamente ocupadas os pensamentos difíceis ou inquietantes sumissem e alimentássemos a falsa ilusão de que os controlamos. Passamos então a ocupar nosso tempo com tudo. Atividades profissionais, atividades que auxiliam, em algum nível, no desenvolvimento, organização, etc etc etc., até ficarmos sem tempo, disposição ou condições reais para estarmos e lidarmos com nós mesmos com abertura. Até estarmos sem tempo para sentir saudade de alguém que amamos na impossibilidade de estarmos juntos como antes. Até estarmos tão cansados que aqueles pensamentos insistentes antes de dormir, que muitas vezes tentam responder às questões existenciais mais conflitantes, ou que podem, inclusive, indicar valores, uma direção pra uma vida valorosa, sejam vencidos pelo extremo cansaço.


Entendo que a necessidade de urgente adaptação ao home office nos confunda, pois o ambiente mais íntimo vem se transformando. O quarto foi dando lugar ao setting terapêutico, a sala foi dando lugar ao setting de filmagem, o hall de entrada foi dando lugar a recepção e, pasmem, numa sessão por chamada minha psicóloga já me acompanhou no banheiro (mas isso é segredo nosso, não que ela precise saber).


O nosso espaço ainda está confuso. A compreensão de tempo-espaço parece estar sob efeitos de fortes psicotrópicos…, mas gente, faz pouco mais de um ano que as coisas mudaram, ou melhor, estão mudando e estamos buscando fazer o possível.


Só quero trazer um pouco a reflexão sobre se fugir do ócio não seria mais uma forma de tentarmos fugir de nós mesmos. Mas calma, não estou sugerindo que você largue tudo para ver a vida passar. Se trata justamente de não só ver, mas enxergar no ócio, e fora dele, a vida passando, ou você passando pela vida, se preferir. Tem uma música de Juraildes da Cruz que se chama "Se correr o bicho pega" e vou pedir licença a vocês para incluir aqui. Ela diz assim:


"Eu pensei correr de mim

Mas aonde eu ia eu tava

Quanto mais eu corria

Mais pra perto eu chegava

Quando o calcanhar chegava

O dedão do pé já tinha ido

Escondendo eu me achava

E me achava escondido

Só sei que quando penso que sei

Já não sei quem sou

Já enjoei de me achar no lugar

Que aonde eu vou eu tô

Eu pensei correr de mim…


Tô pensando tirar férias de mim

Mas eu também quero ir

Só vou se minha sombra não for

Se ela for eu fico aqui

Um dia desses sonhando

Eu pensei: não vou me acordar

Vou me deixar dormindo

E levanto pra comemorá

Eu pensei correr de mim…


O espelho me disse

Só tem um jeito pro assunto

Não adianta querer morrer

Porque se morrer vai junto

Se correr o bicho pega

Mas se limpar o bicho some

Tem que desembaraçar

O novelo da vida do homem"


… A pandemia tem nos cansado, o que é mais do que compreensível. Seria realmente incrível se pudéssemos dormir e magicamente se realizasse a cura. Se rapidamente a dor do luto fosse embora. Se quando acordássemos percebêssemos que era só um grande pesadelo daqueles que quando acordamos demoramos um bom tempo para entender que na verdade era tudo produto de uma imaginação criativa e desperta. Mas precisamos viver isso porque não adianta querer morrer, porque se morrer vai junto.


Ou você desembaraça e entende que não adianta correr de si, ou você pode perder momentos como o agora.


* Comediante, palhaça e psicóloga. instagram: @oicamilagiulia


Link da imagem: https://www.arteeblog.com/2016/05/analise-de-o-devaneio-de-dante-gabriel.html

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1 Comment

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Nilton Santos
Nilton Santos
Apr 14, 2021

Ótima reflexão!

Em tempos normais onde a cultura do excesso de produtividade já torna o ócio algo desagradável, estar mais próximo dele fica desesperador.

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