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DIÁRIO DE VIAGEM: decolonialidade, antropofagia e escravidão

Atualizado: 13 de abr. de 2024




No início de fevereiro, mais especificamente entre os dias quatro e oito, fiz uma visita ao Rio de Janeiro. O Rio, assim como Salvador, é uma cidade que inspira e expira belezas e cultura. É a terceira vez que vou ao Rio e mais uma das que me surpreendo com o que a cidade pode oferecer. Dessa vez tive a oportunidade de fazer um passeio cultural, indo em quatro museus, dentre eles o “Parque das Ruínas” e a “Chácara do Céu”, ambos localizados no bairro de Santa Tereza.

Chegando no bairro descontraído, Santa Tereza, fui conhecer a escadaria de Selarón, obra de arte do chileno Jorge Seláron. Naquela escadaria vermelha, cheia de vida e energia, estão reunidos azulejos de todos os tipos, estampados com frases em diversos idiomas e figuras das mais variadas. Azulejos que permeiam a cultura popular de várias partes do mundo e a cultura erudita, numa miscelânea de cores e sentidos que instigam a apreensão dos detalhes do mundo. Principalmente o imaginário da América Latina invertida.


Subir essas escadarias é também estar caminhando em direção a uma outra significação do que é ser latino-americano e brasileiro, do que é fazer parte ou estar em contato o tempo inteiro com grupos marginalizados socialmente. Ser latino-americano é também estar no topo da periferia, ainda que você seja ou sinta-se branco. Não, meu caro, você é latino. E ser latino é isso, comer temperos diversos em uma grande sopa de sabores, mesmo que essa sopa amargue com ideias de indivíduos neonazistas, fascistas, racistas, capacitistas, machistas e LGBTfóbicos.


Naquele ambiente, o colorido e a artesania não se destacam apenas nos azulejos que emitem mensagens de empoderamento latino. Logo na entrada de Selarón há grafites com imagens de figuras importantes para a meio cultural como as do modernismo e figuras contemporâneas como Ney Matogrosso, ou ainda, a imagem da ativista abolicionista Harriet Tubman. Não sei dizer se esses grafites são permanentes ― creio que não, pensando na geral efemeridade desse tipo de obra. Mesmo assim o visitante ou passante consegue se inserir em uma atmosfera reflexiva, ao mesmo tempo divertida e cheia de sinergia com a cultura contemporânea local e global.


Aquele cenário combinando com a minha roupa, o sol escaldante do Rio e o vestido verde de um material indiano, me fizeram sentir como se estivesse no topo do mundo redescobrindo a vida. Estava acompanhada de meu tio. Eu e ele decidimos subir a ladeira de Santa Tereza em direção ao bondinho. Porém, no meio do caminho encontramos um grafite de Pásargada, ou melhor, uma mensagem que dizia que Manuel Bandeira havia morado ali, encontramos também a casa de Nise da Silveira e a escola Machado de Assis.


Na minha cabeça de leitora, pesquisadora e crítica, estava em uma cama de plumas de significados, imagina pisar onde aquelas pessoas estiveram em um outro tempo? Meu maior desejo era antropofagiar aqueles concretos onde estivera tantos pensadores que admiro.


Perdemos o bonde, mas não perdemos a viagem. E nesse desejo de querer saber mais, nos deparamos com o “Parque das ruínas”, ali encontramos a exposição “Mátria”, com a curadoria de Marina Ribas. No Parque é possível ter uma vista em 360 graus do Rio de Janeiro. Encontramos ali instalações viscerais, quadros como o de Gabriela Fero, que ressignifica o ritual canibal, até instalações que remetiam as práticas ancestrais do curandeirismo e do próprio Candomblé.


A exposição “Mátria” traduz uma forma outra de significar o Brasil e o contraste com a paisagem só nos lembrou o trecho de “O estrangeiro”, música de Caetano Veloso:


O antropólogo Claude Levy-Strauss

detestou a Baía de Guanabara

Pareceu-lhe uma boca banguela


De fato, a oposição entre morros, favelas, bairros chiques e uma linda vista para onde quer que se olhe, convoca o expectador. A exposição não destoa da paisagem, porque ela sim é também um reflexo de Brasil, um enraizamento naquele lugar de pedras e ruínas. A exposição traduz sob um olhar feminino: a pátria. A ruína. O vazio da boca banguela que quer se imaginar com dentes, no seu sentido social e artístico e faz da sua fantasia um verdadeiro Dom Quixote.


Quem construiu o país se não as mulheres, as pessoas negras e indígenas, quem pariu e deu de mamar? Quem criou filhos solo? Quem foram e quem são as matriarcas? O matriarcado de Pindorama em seu estado mais pleno. As mulheres, são elas que produzem “amor/humor”, para parafrasear Oswald de Andrade, e arte. São elas que alimentam a terra em seu sentido literal e literário. Mesmo com todo subdesenvolvimento, o país resiste, as mulheres ainda mais, principalmente as que não são privilegiadas racialmente e economicamente. “Mátria” explora esse coração de argila que não se desfaz na mão e resiste.


E nesse trajeto de ser, sentir e resistir, também se fez presente nesse meu itinerário cultural o “Museu Chácara do Céu”, que reúne um acervo de tirar o folego com obras de Di Cavalcanti, Portinari e até mesmo Rousseau, esse último foi uma grande surpresa porque não esperava que o filosofo também tivesse se aventurado na pintura. O espaço também abriga esculturas e obras de dinastias chinesas e da arte clássica grega. Mas o que mais me chamou atenção no ambiente foram duas exposições temporárias, uma que ressignificava Debret e a outra que aproximava Mao Tse-Tung de Macunaíma.


Para contextualizar: Debret foi um dos maiores gravuristas do Brasil colonial, com certeza você já viu Debret mesmo sem saber de quem se tratava. No "Museu Chácara do Céu” existe um enorme acervo do gravurista em gavetas e lá é possível ver desde a fauna e a flora do país até retratos da escravidão que era normalizada naquele momento histórico. Sei que as obras estão engavetadas por motivo de conservação.


O espectador pode livremente abri-las e olhá-las. O gesto se torna simbólico, abrir as gavetas da história de um Brasil colonial e depois fechá-las. O tema parece sempre retornar para esse sentido, o da exposição das mazelas mais profundas de temos em tempos e depois o esquecimento, daqui a pouco estoura mais outra polêmica. A mais recente, de 2023, o caso de escravidão nas vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton.


Os retratos de Debret não deveriam ser engavetados porque a realidade é explicita e machuca, felizmente outras pessoas também pensam assim e além, não basta expor Debret, é preciso ressignificar. Essa foi a proposta da exposição Reler Debret, curadoria de Anna Paola Baptista, composta por vários artistas contemporâneos como: Denilson Baniwa, Herbert Sobral, Valério Ricci Montani e a artista Isabel Löfgrena em dupla com Patricia Goùvea.


Essas obras rasuram a história e propõe um significado decolonial, por exemplo, Baniwa faz colagens de figuras que remetem o digital por cima das gravuras de Debret, numa crítica no sentido de empoderar o "bárbaro" tecnizado e mostrar que os povos indígenas são autônomos de suas identidades. As obras são uma ironia e uma alfinetada para as pessoas não indígenas que ainda conservam um estereótipo colonial falacioso do que é ser indígena.


Já a obra de Löfgrena em conjunto com Goùvea, propõe colagens que apagam os brancos, os quais aparecem geralmente no centro das gravuras de Debret. As colagens das artistas evidenciam os escravizados, invertendo a ordem social, mostrando aqueles que antes estavam na periferia. Empoderando os subalternizados e entregando uma carta de decolonialidade, de alforria, dos direitos e das liberdades que precisam habitar o imaginário. Viajar é alimentar a mente com outras formas de conexão com o mundo, assim como visitar museus e reler a história do país.


É interessante perceber que diante de todo o caos atual e com casos de racismo diariamente explodindo na mídia, de situação análoga a escravidão, de joias de 15 milhões para primeiras damas, de neonazismo em palanque, ainda é possível reimaginar as latinidades que perpetram o bem e o mal que reside nessa nação antropofágica.


Se faz necessário perceber que pessoas que invadiram essas terras em 1500 já achavam que o Brasil ia dar errado e assim foi, o Brasil deu errado e foi explorado com o seu jeitinho, o que nos sobra é reestruturar esse imaginário. Exposições como as que presenciei é uma forma de reinventar esse campo de invenções e construir um projeto mais feliz de latinidades, afinal, o que nos sobra é a fantasia e o realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez, agora nos resta nos orgulhar dos nossos e não assoprar cinzas. Como diz a letra de Chico Sciece: “Viva Zapata, Viva Zumbi, Antônio Conselheiro!”. Viva a América Latina, viva. E que outras significações de viagens possam ser escritas a partir dessas novas produções.


Foto de capa: Arquivo pessoal, obra de Denilson Baniwa.


A exposição "Mátria" é hibrida, para ter acesso ao acervo visite o site: https://www.galeriaparalela.com/matria-exposicao

2 Comments

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Guriaaaaa fui longe com seu texto. Em um dado momento, pensei que seria legal ter a foto das obras e dos ambientes ao longo do texto, mas isso é pura tolice minha! Sua arte de escrever descrevendo lugares, ideias e sensações é muito mais convidativo. Seus textos pós experiências são encantadores 🌹

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Jorge A. Ribeiro
Jorge A. Ribeiro
Mar 08, 2023

Gostei do seu relato, inclusive quando eu visitar o RJ, um dia, quero enveredar nessa parte cultural, histórica e política também. Acho de uma importância fundamental sempre estar em contato com a nossa trajetória, ainda que para criticá-la. Gostei da novidade sobre a face artística de Rousseau, dado que dele apenas conhecia seu lado político e filosófico.


Além disso você tocou num ponto importante de que muitos negam a condição 'latina', não somente os neonazistas brasileiros não-brancos, mas também parte da elite que tenta se desprender do legado escravocrata e patrimonial, que tenta se desgarrar da construção histórica e social da América Latina, mas não tem jeito: dinheiro não apaga origem, e não compra naturalidade. Podem trocar o sotaque, podem…


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