COMO ESCOLHER UM BOM LIVRO?
- Jacqueline Gama
- 29 de out. de 2024
- 3 min de leitura

Um livro é uma oportunidade de conhecer um outro em seu íntimo. Além de reconhecer diferentes mundos e formas de pensar. Em um momento em que vivemos o boom de livros de autoajuda, empreendedorismo e evangelização, como incentivar a leitura literária e o discernimento diante das escolhas de uma narrativa?
Um crítico literário mais conservador provavelmente vai dizer que um bom livro é um clássico, porém não podemos esquecer que essa ideia de clássico parte da mentalidade de que a obra nunca vai morrer, independente da época. Em qualquer período, aquele livro fará sentido.
Além disso, um clássico toca nas feridas humanas: a morte, o amor, as relações familiares, a pessoa diante de algum aspecto da sociedade. Também, linguisticamente, um clássico se torna surpreendente, seja pelos seus neologismos, metáforas ou algum outro trabalho com a linguagem que faz do simples uma obra prima.
Entretanto, aquilo que a crítica considera como clássico, majoritariamente, está imbricado com o pensamento eurocêntrico, tanto que a maioria dos ganhadores do prêmio Nobel de Literatura, 70% deles, até 2019, eram de nacionalidade europeia. Este ano de 2024, a Ásia chegou ao seu 9º prêmio com a escritora Han Kang, representando o primeiro da Coreia do Sul. Só para destacar, a América Latina tem apenas 4 prêmios, e nenhum brasileiro. Já o continente africano possui somente 5 prêmios. Ou seja, o abismo entre Norte e Sul global é imenso.
Trago o exemplo do Nobel como um mecanismo de validação da literatura, que embora seja importante, principalmente no mundo ocidental, não deve ser a única régua de medida. Assim como nenhum prêmio, principalmente os estrangeiros.
Infelizmente, nós brasileiros tendemos a laurear tudo aquilo que é reconhecido pela Europa e Estados Unidos, outro exemplo crasso disso é o Oscar e Cannes para o cinema, a Bola de Ouro e o FIFA The Best para o futebol. No entanto, podemos inventar outros prêmios dentro do nosso território, e alguns já existem, para citar o mais conhecidos, o Jabuti, na literatura e o Kikito, no cinema , mesmo que estes, em algumas ocasiões, também corroborem com o padrão eurocêntrico.
A questão, de fato, para a escolha de um bom livro não é o reconhecimento pelo prêmio ou pela crítica, embora, realmente, estes tenham um peso para a circulação e validação de uma obra como monumento artístico e literário. Porém, vale mais o significado do quanto a literatura modifica a vida de uma pessoa e a faz refletir. São os pontos de inflexão, e as vezes até um certo desconforto, que transformam o pensamento.
Essa mudança pode acontecer lendo um livro infantil, um mangá, ou um gibi, com frequência colocados na gaveta de uma literatura menor. Também, as fantasias podem incentivar o pensamento crítico e o hábito de ler. Como educadora, penso que é melhor um jovem estar concentrado naquilo que é considerado uma literatura menor do que vendo reels de 30 segundos e vídeos do tiktok.
De alguma forma, se alguém está compenetrado em uma literatura é porque algo ali lhe tocou, então um bom livro é sempre bom para o leitor que o lê e não necessariamente para o público hegemônico. Entre ler ou não ler, eis a questão, fico com a leitura e descubro se é boa ou não. E se não gosto, passo para o próximo livro.
REFERÊNCIAS
TAG LIVROS. Infográfico: Prêmios Nobel de Literatura por gênero e continente. <https://www.taglivros.com/blog/infografico-premios-nobel-de-literatura-por-genero-e-continente/> Visto em: 29 out. 2024.
G1. Han Kang, escritora sul-coreana, ganha Prêmio Nobel de Literatura 2024 <https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2024/10/10/han-kang-escritora-sul-coreana-ganha-premio-nobel-de-literatura-2024.ghtml> Visto em: 29 out. 2024.
Foto de capa: Han Kang <https://revistapesquisa.fapesp.br/han-kang-e-a-primeira-sul-coreana-a-receber-o-nobel-de-literatura/>
Um bom texto,Jac,uma ode a literatura elogiavel.