AUTOESTIMAS ESTILHAÇADAS PELA BELIGERÂNCIA RACIAL NAS ESCOLAS.
- Lígia Costa
- 19 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de mai. de 2024

“Eu sabia que era negra por causa dos meninos brancos na escola. Quando brigavam comigo diziam: - Negrinha! Negrinha fedida!”
Carolina de Jesus – Diário de Bitita
De tempos em tempos somos surpreendidos por notícias sobre casos de violência racial sofrida por crianças negras em espaços escolares, cujos autores são colegas, pais e até mesmo professores. A alta incidência de episódios de racismo escancara a profundidade das raízes do racismo no país, uma vez que a violência está alocada justamente em instituições escolares, onde se espera que sejam construídos, disseminados e integrados conhecimentos que orientem perspectivas e posicionamentos de sujeitos no mundo pautados em respeito e empatia.
Os casos noticiados sobre racismo em escolas atingem pessoas negras profundamente, porque as fazem rememorar suas vivências de infância. Eu fui uma menina negra que vivenciou o racismo na escola, de colegas e professores, e desejaria seguir falando dessa parte da minha história como uma excepcional ocorrência, mas a minha experiência é uma entre muitas outras.
Enquanto uma menina negra estive à mercê de manifestações de violência racial e afirmo, pior do que a dor da humilhação é o vazio do desamparo, da sensação de abandono, porque os agentes do racismo imputam em nosso corpo-alvo a negação do que somos. A nossa pele não é uma roupa que é possível trocar, não temos como nos desvestir de nós mesmos, portanto palavras de consolo como “Não ligue!” não curam a ferida na autoestima estilhaçada.
Saber que meninas e meninos negros continuam sendo submetidos a violência racial e que ela marcará essas pessoas por toda vida desatina a dor que ainda está aqui, talvez mais bem elaborada, talvez alienada, mas que sei que seguirá comigo. Me aflige saber que pessoas tão jovens estão hoje angustiadas por terem que voltar amanhã para um espaço de violência e terão que conviver com seus agressores. É injusto que crianças precisem elaborar estratégias para que possam escapar do ódio que a elas é desferido por causa da única coisa que não podem modificar, a própria existência, quando, na verdade, deveriam estar só sendo crianças. O racismo é traça da felicidade.
Jovens cabeças precisam se ocupar em não quebrar. Uns tornam-se os tímidos, outros os agressivos e tantos outros, rigidamente, juízes de si, esses que, futuramente, serão chamados de guerreiros e fantásticos.
O medo de ser quem se é torna-se um companheiro íntimo, constante e feroz que sobre alguns concretiza o plano de morte, não por fraqueza do corpo que tomba, mas porque é pesado demais. E não, o medo não provém de uma construção deturpada da realidade, sintoma de um transtorno psíquico, (Patologizadores da infância negra, se liguem!) o medo é resultado de uma existência sistematicamente violada por silenciamentos, suspeições e negativas.
Casos de racismo nas escolas são aviltantes, pois espaços de aprendizagem deveriam ser terrenos de transformação e não de violência e sofrimento, pelo menos essa é a semente plantada no nosso imaginário, quando somos jovens. Nos dizem que temos que ir para escola, pois lá aprenderemos coisas que nos farão pessoas melhores e por isso nos tornaremos vencedores. Essa lição não serve para todos, pois a escola continua validando um fazer excludente que insiste em um currículo universalizado, ignorando outras epistemologias sem acolher a diversidade entre estudantes.
Aspectos culturais de sujeitos margeados são folclorizados em datas comemorativas e nos demais dias do ano escolar são negados. As ocorrências de violência racial possuem uma variedade de aspectos que precisam ser considerados com atenção e cuidado, a fim de ampliarmos nosso campo de reflexão e diálogo.
Adianto aqui alguns desses aspectos para que possamos nos conectar por nossas inquietações. Acredito que preciso começar com uma correção interpretativa: Racismo não é bullying. Conforme a Lei 13.185 que institui o Programa de combate à intimidação sistemática, bullying é o “ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas” (Art. 1ª, parágrafo 1ª).
Conforme a lei, o bullying caracteriza-se pela falta de motivação anterior à ação violenta, ou seja, não existe uma base constitutiva para a agressão, diferente do racismo que tem fundação social, portanto precisa parar de ser deslocado do coletivo e individualizado como um comportamento desviante. Para quem tem interesse em ampliar essa discussão, sugiro o livro “Negras (In)confidências – Bullying não. Isto é racismo” organizado pelas professoras Benilda Brito e Valdecir Nascimento.
Seguindo, é urgente que instituições escolares sejam também responsabilizadas pela ocorrência da violência racial em seus espaços. Explico o porquê, nenhum posicionamento é neutro, quando escolas não elaboram projetos político-pedagógicos, por exemplo, orientados pela diversidade de saberes estão dizendo para seus estudantes quais conhecimentos são considerados valorosos e quais são desprezados.
Ao emitir notas de repúdio, as escolas estão dizendo “Não temos nada com isso!” Mas são coautores da violência, quando resguardam a permanência de agressores em seus espaços, porque são pagantes de mensalidades, quando deveriam desligá-los por não estarem em consonância com a máxima de respeito que todas as escolas deveriam seguir. Antes que alguém possa dizer que as escolas podem promover a reeducação dos agressores com medidas interventivas como palestras, rodas de conversa etc., já adianto que atividades pontuais de conscientização contra o racismo não são efetivas, mas paliativas, logo sem efetividade na transformação social, pois investimentos na mudança precisam ser contantes e contundentes.
O racismo é discurso que, na maioria das vezes, não tem voz, é aprendido no silêncio da negação. Mas como tudo que se aprendemos podemos desaprender. Diante disso faço outra sugestão, um texto meu “A menina do laço amarelo” publicado no Cadernos Negros, volume 42 e espero que possamos estender essa conversa para muitos outros lugares.
Texto importantíssimo Lídia, principalmente essa conexão do racismo não ser bullying. Muito tocante seu testemunho sobre a infância negra e a necessidade de uma educação racial urgente de forma perene, de forma programática e não pontualmente. Não pude deixar de lembrar de " O avesso da pele", do Jefferson Tenório, que estou lendo no momento.
Ótimo texto. Não podemos mesmo normalizar o racismo e colocar na mesma camada do bullying.