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"A BICHA, INVERTIDA E VULGAR": A VOZ DE CHICA MANICONGO QUE CALOU O "CIS TEMA" NO SAMBA ENREDO DA PARAÍSO DA TUIUTI




Ontem, na terça-feira de Carnaval, último dia das festividades, decidi ficar até mais tarde em frente à TV para acompanhar o encerramento dos desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro. Foi então que o segundo desfile da noite me surpreendeu de forma extremamente positiva. A grandiosidade do enredo chamou minha atenção e, ao mesmo tempo, encheu meu coração de alegria. A cada detalhe que surgia na tela, eu me sentia ainda mais emocionada e feliz com o espetáculo que presenciava e, portanto, quis compartilhar com vocês através desse artigo.


A Escola de Samba Paraíso do Tuiuti trouxe para a Sapucaí o enredo "Quem tem medo de Xica Manicongo?", trazendo à tona a história de Xica Manicongo, reconhecida como a primeira travesti documentada no Brasil. O antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), encontrou nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, uma denúncia de sodomia feita em 1591 à Inquisição. Esta denúncia falava de Xica, que nasceu no Reino do Congo e como muitos outros e outras, foi trazida para Salvador, na Bahia, como escrava no final do século XVI. De acordo com esses documentos, Xica foi acusada de “servir de mulher no pecado nefando” e de recusar a usar roupas masculinas. Por conta disso foi denunciada à Inquisição por Matias Moreira, um cristão-velho de Lisboa.


A denúncia não se limitava à condição de Xica como pessoa escravizada, mas focava, sobretudo, em sua expressão de gênero, considerada transgressora diante da moral europeia. O motivo central da acusação era o uso de um pano cingido ao corpo, vestimenta tradicional entre os quimbanda do Congo e de Angola — indivíduos que desempenhavam papéis de gênero femininos em suas sociedades. Para os colonizadores europeus, tais práticas eram vistas como ameaças à ordem imposta, e aqueles que as adotavam eram rotulados de "sodomitas", termo pejorativo utilizado para descrever e punir comportamentos e identidades que fugiam às normas sexuais e de gênero da época.


Os quimbanda, nas culturas do Congo e de Angola, eram figuras respeitadas e integradas às suas comunidades, representando uma visão de gênero e sexualidade que contrastava com a moral cristã imposta no Brasil colonial. Ao ser trazida como escravizada para a Bahia, Xica foi batizada como Francisco, mais um instrumento utilizado para forçá-la a se conformar à sociedade dominada pelos preceitos da Igreja Católica. Essa imposição não apenas desconsiderava a identidade de Xica, mas também evidenciava a violência contra sua expressão de gênero. Além de toda a dor e sofrimento gerados pela escravização e pela separação forçada de sua terra mãe, ela foi denunciada à Inquisição, buscando apagar suas tradições culturais africanas, consideradas uma ameaça à ordem social vigente à época. A acusação contra Xica, por se recusar a vestir roupas masculinas, expõe as formas brutais de controle que o sistema colonial exercia sobre os corpos e identidades das pessoas escravizadas, na tentativa de subverter suas culturas e impor uma identidade submissa e conformada à moral cristã.


Após a denúncia, Xica foi condenada a ser queimada viva em praça pública, e seus descendentes seriam desonrados até a terceira geração. Para evitar a morte, ela foi forçada a abandonar suas vestes e comportamentos femininos, passando a se portar como um homem durante o dia. No entanto, à noite, Xica encontrava uma forma de expressar sua verdadeira identidade, vivendo de acordo com o que sentia em seu interior. Esse ato de resistência à imposição brutal das normas coloniais evidencia a luta pela preservação de sua identidade, mesmo diante de uma sociedade que tentava apagá-la e subjugá-la.


Hoje, Xica Manicongo se tornou um símbolo de resistência para a população LGBTQIAPN+ negra e periférica. A homenagem feita pela escola de samba Paraíso do Tuiuti representa um marco significativo na valorização da história de pessoas trans e negras no Brasil. Ao levar para a avenida a narrativa da primeira travesti documentada no país, a escola cumpre um papel essencial de resgate histórico, desafiando as estruturas excludentes que ainda permeiam nossa sociedade. Através desse ato, a Paraíso do Tuiuti dá voz às narrativas historicamente silenciadas, resgatando a memória de uma figura emblemática na luta contra as opressões de gênero e raça, além de reafirmar a importância de reconhecer e valorizar as identidades que foram marginalizadas ao longo da história.


O Carnaval, como uma das maiores manifestações culturais popular, sempre foi palco para trazer discursos de resistência e contestação social. Contar a história de Xica Manicongo resgata essa tradição, e mostra que a Sapucaí não é somente um lugar de samba e desfiles, mas também de reflexão e reconhecimento da diversidade sexual e de gênero. Mais do que uma homenagem, a escolha do enredo reflete a urgência de discutir a violência contra a comunidade LGBTQIAPN+ e o racismo estrutural no Brasil, país que lidera os índices de violência contra esse grupo social.


Histórias como a de Xica Manicongo não podem mais ser silenciadas ou serem empurradas para debaixo do tapete. A história do Brasil foi construída por corpos marginalizados que, por muito tempo, foram apagados pelos discursos oficiais. É o Carnaval servindo como uma ferramenta poderosa de clamor por uma reparação histórica, pelo fim da violência e de luta por um futuro onde a diversidade seja não apenas reconhecida, mas celebrada.


REFERÊNCIAS:

 

BRASIL DE FATO. Homenageada no Carnaval do Rio, quem foi Xica Manicongo, a primeira travesti do Brasil. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/03/04/homenageada-no-carnaval-do-rio-quem-foi-xica-manicongo-a-primeira-travesti-do-brasil/. Acesso em: 5 mar. 2025.

 

GRUPO GAY DA BAHIA. O retrato falado de Xica Manicongo. Disponível em: https://grupogaydabahia.com.br/o-retrato-falado-de-xica-manicongo/. Acesso em: 5 mar. 2025.


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Jac Gama
Jac Gama
Mar 05
Rated 5 out of 5 stars.

Reescrevendo a história e re-descobrindo monumentos da memória cultural.

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